As redes sociais são o ópio do povo?

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Publicada em 05/04/2019 às 06:50:00

 

*Antônio Samarone
Não existem dúvidas: a vida desandou! O fundo do poço sempre pode ser aprofundado. A indignação nas redes sociais não gera uma narrativa consistente, nem leva a ações. A sociedade do espetáculo criou a sociedade do escândalo, isso mesmo, ondas de escândalos se sucedem como numa série cinematográfica. Ondas de indignação são eficientes para mobilizações efêmeras.
O que está acontecendo?
Não se trata de uma dificuldade conjuntural, uma crise, um momento de dificuldade. Voltei aos clássicos, reli grundrisse, memórias do cárcere, história e consciência de classe, o que fazer, nada, nenhuma luz, eles falam de outra realidade. 
Encontrei uma análise razoável lendo Byung-Chul, um filosofo sul coreano. Não se assustem, as referências são outras. Veja o que diz o novo guru: A indignação digital é estéril, um estado afetivo, uma raiva que não visa o bem comum. A massa de indignação nas redes sociais não gera futuro, não produz movimentos consistentes. A indignação digital é parte da desagregação social em que vivemos.
A primeira grande narrativa ocidental, a Ilíada, é uma canto de cólera, relata e sustenta as ações heroicas. A indignação digital é raiva, impotência, um estado afetivo que não leva a nada. A indignação digital não é cantável. O enxame digital não tem alma de massa, são indivíduos singularizados, não desenvolve o nós. O exame digital não se externa como uma voz, ele é só barulho. O homo digitalis é um aglomerado sem alma, sem espírito, uma massa isolada diante das telas. As mídias digitais singularizam o homem.
As massas tradicionais tinham poder, objetivos estáveis, marchavam numa direção. As massas digitais são efêmeras, enxames digitais, dissolvem-se rapidamente, não criam energia política. A globalização criou multidões, ajuntamentos de singularidades que se comunicam através de redes sociais. Essa multidão de solitários é subproduto da capitalismo financeiro, do novo espírito. A pós modernidade criou uma sociedade quem nem é de produção nem de consumo, uma sociedade da pós verdade.
A solidariedade desapareceu, o amor ao próximo perdeu o sentido. A privatização avançou até a alma. O sujeito do desempenho explora a si mesmo até ruir. Ele desenvolve uma auto agressividade que não raramente desemboca no suicídio. A enxurrada de informações efêmeras leva a indiferença, agudiza a fadiga mental. O TDHI (déficit de atenção) não é uma doença, mas um mecanismo de defesa. Um fuga do precipício, uma recusa à corrida do desempenho, uma tentativa de retorno ao essencial.
Mídias narcisistas (Facebook, Twitter), sobrecarregam a auto referência, base dos processos depressivos. O tempo é desmontado numa sucessão de presentes disponíveis. É o fim do futuro, da esperança, do sonho e da expectativa. Não esperamos mais nada.
Em síntese, segundo o sul coreano, as redes sociais além de não ajudarem, atrapalham. São partes da dominação, da criação de um novo consenso, de uma nova sociedade, onde o único valor é o econômico. Tudo vira mercadoria.
*Antônio Samarone é médico, professor, auditor do Trabalho e ex-vereador de Aracaju.

*Antônio Samarone

Não existem dúvidas: a vida desandou! O fundo do poço sempre pode ser aprofundado. A indignação nas redes sociais não gera uma narrativa consistente, nem leva a ações. A sociedade do espetáculo criou a sociedade do escândalo, isso mesmo, ondas de escândalos se sucedem como numa série cinematográfica. Ondas de indignação são eficientes para mobilizações efêmeras.
O que está acontecendo?
Não se trata de uma dificuldade conjuntural, uma crise, um momento de dificuldade. Voltei aos clássicos, reli grundrisse, memórias do cárcere, história e consciência de classe, o que fazer, nada, nenhuma luz, eles falam de outra realidade. 
Encontrei uma análise razoável lendo Byung-Chul, um filosofo sul coreano. Não se assustem, as referências são outras. Veja o que diz o novo guru: A indignação digital é estéril, um estado afetivo, uma raiva que não visa o bem comum. A massa de indignação nas redes sociais não gera futuro, não produz movimentos consistentes. A indignação digital é parte da desagregação social em que vivemos.
A primeira grande narrativa ocidental, a Ilíada, é uma canto de cólera, relata e sustenta as ações heroicas. A indignação digital é raiva, impotência, um estado afetivo que não leva a nada. A indignação digital não é cantável. O enxame digital não tem alma de massa, são indivíduos singularizados, não desenvolve o nós. O exame digital não se externa como uma voz, ele é só barulho. O homo digitalis é um aglomerado sem alma, sem espírito, uma massa isolada diante das telas. As mídias digitais singularizam o homem.
As massas tradicionais tinham poder, objetivos estáveis, marchavam numa direção. As massas digitais são efêmeras, enxames digitais, dissolvem-se rapidamente, não criam energia política. A globalização criou multidões, ajuntamentos de singularidades que se comunicam através de redes sociais. Essa multidão de solitários é subproduto da capitalismo financeiro, do novo espírito. A pós modernidade criou uma sociedade quem nem é de produção nem de consumo, uma sociedade da pós verdade.
A solidariedade desapareceu, o amor ao próximo perdeu o sentido. A privatização avançou até a alma. O sujeito do desempenho explora a si mesmo até ruir. Ele desenvolve uma auto agressividade que não raramente desemboca no suicídio. A enxurrada de informações efêmeras leva a indiferença, agudiza a fadiga mental. O TDHI (déficit de atenção) não é uma doença, mas um mecanismo de defesa. Um fuga do precipício, uma recusa à corrida do desempenho, uma tentativa de retorno ao essencial.
Mídias narcisistas (Facebook, Twitter), sobrecarregam a auto referência, base dos processos depressivos. O tempo é desmontado numa sucessão de presentes disponíveis. É o fim do futuro, da esperança, do sonho e da expectativa. Não esperamos mais nada.
Em síntese, segundo o sul coreano, as redes sociais além de não ajudarem, atrapalham. São partes da dominação, da criação de um novo consenso, de uma nova sociedade, onde o único valor é o econômico. Tudo vira mercadoria.

*Antônio Samarone é médico, professor, auditor do Trabalho e ex-vereador de Aracaju.