O assalto evitado

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Publicada em 20/03/2019 às 08:54:00

 

* Antonio Passos
Roldão tornou-se policial, por meio de aprovação em um concurso público, faz uns vinte anos. Graduado em Direito, é provável que tenha sonhado com outras carreiras profissionais: defensor público, promotor de justiça, juiz, desembargador… Quem sabe? Mas, o fato é que o tempo passou e ele acomodou-se na função policial.
Ele tem uma característica que logo se evidencia para quem o conhece: é uma pessoa que, como se diz, "veste a camisa". Assim, ao ingressar na polícia, Roldão tornou-se o mais voluntarioso componente da corporação. Todo esse empenho, certamente, o afastou ainda mais da possibilidade de buscar outra carreira no serviço público.
No cotidiano do trabalho policial Roldão conquistou um lugar intermediário na preferência dos companheiros. Para algumas tarefas nunca é convocado, pois, é muito independente na defesa de ideias que forjou no decorrer dos estudos jurídicos. Porém, quando aparecem "pepinos" burocráticos, o nome dele é sempre lembrado.
Roldão é um trator, comenta-se. Muitas vezes, ainda a caminho do trabalho, encontrou situações conflituosas e não titubeou, entrou em ação e já chegou ao posto de serviço conduzindo uma ocorrência. Ter saído do plantão muito tempo depois da hora marcada também é um procedimento farto na ficha funcional de Roldão.
Porém, nem só de polícia vive o homem. Roldão é também um cidadão muito atento aos problemas da atualidade. Sempre expressa opiniões sobre política e outros assuntos de interesse público. De uns anos pra cá, um tema passou a ocupar lugar de destaque nas conversas de Roldão, como ele diz: "o assustador aumento da insegurança".
Além de referir-se incansavelmente à insuportável onda de violência que sente avançar sobre o país, ele está sempre a criticar ações que favorecem a impunidade e a defender ideias que deveriam ser adotadas para combater a criminalidade. Acompanhando toda a insistente teorização, Roldão sempre costuma apresentar casos ilustrativos.
Uma história recente contada por ele, para ilustrar a situação calamitosa na qual vivemos, aconteceu, disse, em um trecho de praia na Aruana, em Aracaju. Roldão mora a pouco menos de um quilômetro da beira do mar, porém, não frequenta a praia, temendo os riscos aos quais se expõe quem vai a ambientes públicos de lazer.
Porém, numa bela manhã de sol, Roldão resolveu desafiar as estatísticas e fazer uma caminhada pela areia da praia. Mal começou e verificou que estava sendo seguido a certa distância por um ciclista. O camarada, disse ele, "tinha todas as características de um assaltante e estava só esperando o melhor momento para dar o bote".
Roldão resolveu adiantar-se. Mesmo estando desarmado, colocou uma mão nas costas e gritou para o ciclista: "parado! Se chegar mais perto eu atiro. Venha, venha pra você ver..." Roldão contou que o camarada, diante da atitude dele, não pensou duas vezes: virou a bicicleta para o lado contrário e deu no pé, caiu fora, sumiu da vista.
No dia seguinte Roldão chegou ao plantão confuso e desabafou: sentia-se heroico por ter-se protegido com sucesso e evitado um assalto. Aliviado pela fuga do suposto assaltante que teria acreditado no blefe da arma, contudo, também sentia-se triste e preocupado por ter visto de perto a situação de insegurança que assola o país.
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Roldão tornou-se policial, por meio de aprovação em um concurso público, faz uns vinte anos. Graduado em Direito, é provável que tenha sonhado com outras carreiras profissionais: defensor público, promotor de justiça, juiz, desembargador… Quem sabe? Mas, o fato é que o tempo passou e ele acomodou-se na função policial.
Ele tem uma característica que logo se evidencia para quem o conhece: é uma pessoa que, como se diz, "veste a camisa". Assim, ao ingressar na polícia, Roldão tornou-se o mais voluntarioso componente da corporação. Todo esse empenho, certamente, o afastou ainda mais da possibilidade de buscar outra carreira no serviço público.
No cotidiano do trabalho policial Roldão conquistou um lugar intermediário na preferência dos companheiros. Para algumas tarefas nunca é convocado, pois, é muito independente na defesa de ideias que forjou no decorrer dos estudos jurídicos. Porém, quando aparecem "pepinos" burocráticos, o nome dele é sempre lembrado.
Roldão é um trator, comenta-se. Muitas vezes, ainda a caminho do trabalho, encontrou situações conflituosas e não titubeou, entrou em ação e já chegou ao posto de serviço conduzindo uma ocorrência. Ter saído do plantão muito tempo depois da hora marcada também é um procedimento farto na ficha funcional de Roldão.
Porém, nem só de polícia vive o homem. Roldão é também um cidadão muito atento aos problemas da atualidade. Sempre expressa opiniões sobre política e outros assuntos de interesse público. De uns anos pra cá, um tema passou a ocupar lugar de destaque nas conversas de Roldão, como ele diz: "o assustador aumento da insegurança".
Além de referir-se incansavelmente à insuportável onda de violência que sente avançar sobre o país, ele está sempre a criticar ações que favorecem a impunidade e a defender ideias que deveriam ser adotadas para combater a criminalidade. Acompanhando toda a insistente teorização, Roldão sempre costuma apresentar casos ilustrativos.
Uma história recente contada por ele, para ilustrar a situação calamitosa na qual vivemos, aconteceu, disse, em um trecho de praia na Aruana, em Aracaju. Roldão mora a pouco menos de um quilômetro da beira do mar, porém, não frequenta a praia, temendo os riscos aos quais se expõe quem vai a ambientes públicos de lazer.
Porém, numa bela manhã de sol, Roldão resolveu desafiar as estatísticas e fazer uma caminhada pela areia da praia. Mal começou e verificou que estava sendo seguido a certa distância por um ciclista. O camarada, disse ele, "tinha todas as características de um assaltante e estava só esperando o melhor momento para dar o bote".
Roldão resolveu adiantar-se. Mesmo estando desarmado, colocou uma mão nas costas e gritou para o ciclista: "parado! Se chegar mais perto eu atiro. Venha, venha pra você ver..." Roldão contou que o camarada, diante da atitude dele, não pensou duas vezes: virou a bicicleta para o lado contrário e deu no pé, caiu fora, sumiu da vista.
No dia seguinte Roldão chegou ao plantão confuso e desabafou: sentia-se heroico por ter-se protegido com sucesso e evitado um assalto. Aliviado pela fuga do suposto assaltante que teria acreditado no blefe da arma, contudo, também sentia-se triste e preocupado por ter visto de perto a situação de insegurança que assola o país.

* Antonio Passos é jornalista