A tragédia do \"Risada de Tigre\": um poeta estanciano em terra fluminense - III

Opinião

 

Acrísio Gonçalves de Oliveira*
Pereira Barreto tentava construir sua absolvição, alegando que teria cometido o crime motivado por seu desequilíbrio mental. Escreveu carta longa à imprensa, sendo daí exaltado por seus dotes filosofais. Assim se exprimiu: "Em consciência não afirmo nem nego que me caiba a responsabilidade do crime pelo qual respondo. Nunca fui um ébrio habitual, um jogador, um debochado, um cínico, um perverso, um criminoso cobarde, como se tem dito sem que  se possa aduzir, como prova aceitável sequer de que eu era esse monstro moral. Não premeditava um crime contra minha esposa, a quem amava, a quem desposara por amor". Mais adiante complementa o escritor, que "por desgraça minha, dela e de meus filhos, três causas conhecidas de acerbação, uma só das quais seria capaz de levar à loucura, me convulsionavam moralmente havia três meses". Além de citar nomes que o levariam a esse estado de "loucura", dava explicações do grave ocorrido, do desgosto que o definhava, do seu sumiço. Usando de filosofia, rematou: "só os indiferentes esquecem; os que amam e os que odeiam, lembram-se sempre, e para estes tantos valem sete meses, quanto sete anos". Disse em outro momento que não fugiu para o exterior por que não quis, pois precisava fazer sua defesa "já estudada por um profissional de renome". 
Os advogados de Pereira Barreto impetraram um habeas-corpus (direito à liberdade retirado pela justiça), mas foi-lhe negado. O provimento ao recurso também o foi. Em junho de 1914, num julgamento que chegou a altas horas da noite, João Barreto foi condenado a 21 anos de prisão. Porém tinha peso e contava com quatro advogados: Luiz Carlos Fróis Junior, Filadelfo de Almeida, Mauricio de Medeiros e Evaristo de Morais. Esse último teria sido um dos fundadores da Associação Brasileira de Imprensa e advogado dos marinheiros da Revolta da Chibata, em 1910. Diante do veredicto do juiz, Evaristo de Morais, ainda um rábula, recorreu da sentença usando como justificativa o fato de ser o seu cliente um alcoólatra habitual. Vale salientar que durante mais de dois anos o caso seguiu acompanhado de perto por Silvio Romero, usando de sua influência para defender o cunhado. Para infelicidade de João Barreto, Romero morreria em 1914, o que foi lamentado por diversos órgãos brasileiros. Escreveu o jornal A Noite que "se havia extinguido este vulto extraordinário que tanto dignificou as letras nacionais, por sua vasta erudição e por sua maravilhosa inteligência" (20.06.1914).
No ano seguinte, após muitos adiamentos a batalha parecia vencida pelos advogados, e Barreto foi absolvido, mas o promotor não se conformando com a decisão do júri entrou com uma apelação, sendo o poeta recolhido à prisão novamente. Passados alguns meses na detenção, João Barreto teve que ser posto em solitária, pois se envolveria numa confusão com dois companheiros de sela em que com um deles discutia a situação financeira do país. Foi a tal ponto a discussão que entraram em socos e pontapés. 
Não sabemos o que discutia Barreto, mas o Brasil vivia a política do "café-com leite", passava por problemas econômico-sociais e havia eclodido a Primeira Guerra Mundial. Comandava o país o presidente Wenceslau Brás (1914-1918). Foi esse governo, que adotando uma dura política financeira, queimou o estoque de três milhões de sacas de cafés para evitar a queda do preço do produto. 
Na "Tragédia do Icaraí", era recorrente o termo "uxoricida" (assassino de mulher feito por quem é marido) atribuído a Pereira Barreto, pois tinha matado sua esposa grávida de quatro meses. Então, após outra apelação, e devido a "uma notável oração" de Evaristo de Morais - que além de outras coisas sustentava a tese de não haver no Rio instituição específica para alcoólatra - em 3 de outubro de 1916, depois de três anos e dez meses o poeta finalmente conseguiu sua liberdade. A decisão causou má impressão ao público. 
Logo que deixou a prisão, João concedeu entrevista ao Diário de Notícias. Ao ser perguntado o que pretendia fazer, respondeu que iria trabalhar. "Beijar meus filhos e abraçar longamente minha mãe, por quem e para quem ainda vivo". De fato, imediatamente pediu a reintegração no cargo de chefe de redação dos debates da Câmara dos Deputados onde queria também que fossem incluídos seus vencimentos, desde 1912. Parece que não teve êxito. Mas isso não o faria deixar de produzir.
Tudo indica que o poeta parnasiano nunca deixou de escrever mesmo enquanto permanecia recluso, dado a proliferação de seus trabalhos. Em abril de 1917 escreveu um "longo estudo", na Revista Americana intitulado, La prison (Aperçus sur le droit répressif ou la justice future). Acreditamos que tenha sido a negativa do pedido de seu antigo emprego, que fizesse Pereira Barreto abandonar o Rio de Janeiro e voltar para Sergipe. Restabelecido, já em 1918 fazia parte, com Clodomir Silva, do corpo de redatores do jornal Correio de Aracaju. Atuou no ramo da advocacia. Ainda em 1918 publicaria o livro Império da Mulher, escreveria sobre O Espiritismo, em 1919. Fez conferências, uma delas em 1º de maio de 1920 em favor do operariado. Em 1921 produziria a obra Limites de Sergipe e Bahia. 
No entanto, a "Tragédia do Icaraí" deixaria uma lição. A revista A.B.C, refletiu o caso um ano antes da soltura de Barreto dizendo que "o poeta uxoricida aprenderá, talvez, que nem toda a filosofia da vida reside no fundo dos cálices. E a arte, que ele saberá produzir na nova fase da sua existência atormentada, será uma arte pura, uma oferta votiva aos homens que dele se apiedaram, à morta que lhe terá perdoado. Será uma arte de expiação, oferecida, com o coração palpitante, à lembrança da vitima duma noite de orgia, sobre os altares augustos da Saudade". 
João Pereira Barreto morreria em Aracaju, no dia 7 de agosto de 1926, aos 50 anos. O semanário A razão, lamentava profundamente ao dizer que era "um talento dos mais completos e mais profundos que jamais surgiram sob o céu de Sergipe". O carioca Orestes Barbosa (1893-1966), importante jornalista e compositor de sucesso como "Chão de Estrelas", considerada obra prima da música brasileira, se referiu ao estanciano como "um lírico de merecimento invulgar" e que havia em Sergipe, no ano de 1928, a tentativa de alguns jovens intelectuais criar a "Academia de Letras João Barreto". Passados 143 anos do nascimento do poeta de Selvas e Céus, agora o que dirá a Estância do presente?
*Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância 

Acrísio Gonçalves de Oliveira*

Pereira Barreto tentava construir sua absolvição, alegando que teria cometido o crime motivado por seu desequilíbrio mental. Escreveu carta longa à imprensa, sendo daí exaltado por seus dotes filosofais. Assim se exprimiu: "Em consciência não afirmo nem nego que me caiba a responsabilidade do crime pelo qual respondo. Nunca fui um ébrio habitual, um jogador, um debochado, um cínico, um perverso, um criminoso cobarde, como se tem dito sem que  se possa aduzir, como prova aceitável sequer de que eu era esse monstro moral. Não premeditava um crime contra minha esposa, a quem amava, a quem desposara por amor". Mais adiante complementa o escritor, que "por desgraça minha, dela e de meus filhos, três causas conhecidas de acerbação, uma só das quais seria capaz de levar à loucura, me convulsionavam moralmente havia três meses". Além de citar nomes que o levariam a esse estado de "loucura", dava explicações do grave ocorrido, do desgosto que o definhava, do seu sumiço. Usando de filosofia, rematou: "só os indiferentes esquecem; os que amam e os que odeiam, lembram-se sempre, e para estes tantos valem sete meses, quanto sete anos". Disse em outro momento que não fugiu para o exterior por que não quis, pois precisava fazer sua defesa "já estudada por um profissional de renome". 
Os advogados de Pereira Barreto impetraram um habeas-corpus (direito à liberdade retirado pela justiça), mas foi-lhe negado. O provimento ao recurso também o foi. Em junho de 1914, num julgamento que chegou a altas horas da noite, João Barreto foi condenado a 21 anos de prisão. Porém tinha peso e contava com quatro advogados: Luiz Carlos Fróis Junior, Filadelfo de Almeida, Mauricio de Medeiros e Evaristo de Morais. Esse último teria sido um dos fundadores da Associação Brasileira de Imprensa e advogado dos marinheiros da Revolta da Chibata, em 1910. Diante do veredicto do juiz, Evaristo de Morais, ainda um rábula, recorreu da sentença usando como justificativa o fato de ser o seu cliente um alcoólatra habitual. Vale salientar que durante mais de dois anos o caso seguiu acompanhado de perto por Silvio Romero, usando de sua influência para defender o cunhado. Para infelicidade de João Barreto, Romero morreria em 1914, o que foi lamentado por diversos órgãos brasileiros. Escreveu o jornal A Noite que "se havia extinguido este vulto extraordinário que tanto dignificou as letras nacionais, por sua vasta erudição e por sua maravilhosa inteligência" (20.06.1914).
No ano seguinte, após muitos adiamentos a batalha parecia vencida pelos advogados, e Barreto foi absolvido, mas o promotor não se conformando com a decisão do júri entrou com uma apelação, sendo o poeta recolhido à prisão novamente. Passados alguns meses na detenção, João Barreto teve que ser posto em solitária, pois se envolveria numa confusão com dois companheiros de sela em que com um deles discutia a situação financeira do país. Foi a tal ponto a discussão que entraram em socos e pontapés. 
Não sabemos o que discutia Barreto, mas o Brasil vivia a política do "café-com leite", passava por problemas econômico-sociais e havia eclodido a Primeira Guerra Mundial. Comandava o país o presidente Wenceslau Brás (1914-1918). Foi esse governo, que adotando uma dura política financeira, queimou o estoque de três milhões de sacas de cafés para evitar a queda do preço do produto. 
Na "Tragédia do Icaraí", era recorrente o termo "uxoricida" (assassino de mulher feito por quem é marido) atribuído a Pereira Barreto, pois tinha matado sua esposa grávida de quatro meses. Então, após outra apelação, e devido a "uma notável oração" de Evaristo de Morais - que além de outras coisas sustentava a tese de não haver no Rio instituição específica para alcoólatra - em 3 de outubro de 1916, depois de três anos e dez meses o poeta finalmente conseguiu sua liberdade. A decisão causou má impressão ao público. 
Logo que deixou a prisão, João concedeu entrevista ao Diário de Notícias. Ao ser perguntado o que pretendia fazer, respondeu que iria trabalhar. "Beijar meus filhos e abraçar longamente minha mãe, por quem e para quem ainda vivo". De fato, imediatamente pediu a reintegração no cargo de chefe de redação dos debates da Câmara dos Deputados onde queria também que fossem incluídos seus vencimentos, desde 1912. Parece que não teve êxito. Mas isso não o faria deixar de produzir.
Tudo indica que o poeta parnasiano nunca deixou de escrever mesmo enquanto permanecia recluso, dado a proliferação de seus trabalhos. Em abril de 1917 escreveu um "longo estudo", na Revista Americana intitulado, La prison (Aperçus sur le droit répressif ou la justice future). Acreditamos que tenha sido a negativa do pedido de seu antigo emprego, que fizesse Pereira Barreto abandonar o Rio de Janeiro e voltar para Sergipe. Restabelecido, já em 1918 fazia parte, com Clodomir Silva, do corpo de redatores do jornal Correio de Aracaju. Atuou no ramo da advocacia. Ainda em 1918 publicaria o livro Império da Mulher, escreveria sobre O Espiritismo, em 1919. Fez conferências, uma delas em 1º de maio de 1920 em favor do operariado. Em 1921 produziria a obra Limites de Sergipe e Bahia. 
No entanto, a "Tragédia do Icaraí" deixaria uma lição. A revista A.B.C, refletiu o caso um ano antes da soltura de Barreto dizendo que "o poeta uxoricida aprenderá, talvez, que nem toda a filosofia da vida reside no fundo dos cálices. E a arte, que ele saberá produzir na nova fase da sua existência atormentada, será uma arte pura, uma oferta votiva aos homens que dele se apiedaram, à morta que lhe terá perdoado. Será uma arte de expiação, oferecida, com o coração palpitante, à lembrança da vitima duma noite de orgia, sobre os altares augustos da Saudade". 
João Pereira Barreto morreria em Aracaju, no dia 7 de agosto de 1926, aos 50 anos. O semanário A razão, lamentava profundamente ao dizer que era "um talento dos mais completos e mais profundos que jamais surgiram sob o céu de Sergipe". O carioca Orestes Barbosa (1893-1966), importante jornalista e compositor de sucesso como "Chão de Estrelas", considerada obra prima da música brasileira, se referiu ao estanciano como "um lírico de merecimento invulgar" e que havia em Sergipe, no ano de 1928, a tentativa de alguns jovens intelectuais criar a "Academia de Letras João Barreto". Passados 143 anos do nascimento do poeta de Selvas e Céus, agora o que dirá a Estância do presente?

*Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância 

 


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