A tragédia do \"Risada de Tigre\": um poeta estanciano em terra fluminense

Opinião

 

* Acrísio Gonçalves de Oliveira
Antes de começarmos a discorrer sobre o personagem do título acima, primeiro faremos rápidas considerações acerca da ascensão poética estanciana em sua história. De fato, ali nasceria, no século XIX, Leopoldo Amaral, os irmãos Severiano Cardoso e Sinfrônio Cardoso, como também os irmãos Constantino Gomes e José Maria Gomes de Souza. Esse era um conjunto de literatos denominados por Silvio Romero (1851-1914), em sua obra Parnaso Sergipano, como os "inteligentes filhos da bela cidade da Estância". Coube a José Maria fazer parte da instauração da escola condoreira no Brasil, um movimento inspirado nos ideais de liberdade do poeta francês Victor Hugo. Tão importante foi a obra de José Maria que historiadores o apontam como o verdadeiro fundador do condoreirismo, antecedendo Tobias Barreto e até mesmo Castro Alves. Porém nessa plêiade de pensadores é preciso adicionar outro talentoso poeta: o jornalista João Pereira Barreto. 
Nascido ainda no século XIX, infelizmente esse literato entraria nas páginas policiais do Rio de Janeiro por um crime - quase impensável para os padrões da época - que chocaria a então capital da República, com repercussão praticamente em todos jornais. A fatalidade passou a ser denominada: "A Tragédia do Icaraí".  
João Antônio Pereira Barreto nasceu na Cidade Jardim a 13 de janeiro de 1876. Era filho do major Antônio Odorico Pereira Barreto e de Maria Petronila Barreto. O pai chegou a ser inspetor do tesouro estadual, ainda no final do século XIX. Consta no Dicionário Biobibliográfico, de Armindo Guaraná que, quando criança a família se transferiu para Aracaju, onde fixaram residência. Fez os estudos primários e secundários no Pathernon Sergipense e em 1887 foi à Bahia, por interesses comerciais. Depois de ficar certo tempo em Salvador, passou para São Paulo, voltando a Sergipe, em 1893, para recuperar-se de uma moléstia. Indo à cidade de Maruim se estabeleceu no comércio local como guarda-livro (equivalente à contabilista). Intelectual, sendo um sócio do Gabinete de Leitura de Maruim tornou-se presidente no período de 1895-1896. 
Publicou ainda no ano de 1895 uma Monografia intitulada Em Prol da Lavoura, que dentre outras coisas reclamava do atraso sergipano "cujo comércio exportador rivaliza em tempo com o das primeiras praças brasileiras" e longe de promover o aperfeiçoamento dos seus produtos "promove, incita, galardoa sua inferioridade". Assim, diante da lavoura que agonizava, no Rio, em 1901, fez uma exposição a deputados e senadores sergipanos sobre como pretendia criar o "Banco Agrícola de Sergipe" que seria inicialmente para ele concedido, ou a "quem mais vantagem oferecer", que, segundo o texto, com o apoio do Estado, passaria aos lavradores sergipanos. Contando com a amizade do deputado federal sergipano Fausto Cardoso o trabalho em questão virou projeto de lei sendo posto em apreciação e aprovado no mesmo ano. Talvez por disputas políticas o tal banco não tenha ido à frente, mas em 1905 o governador Josino Menezes criaria o Banco de Sergipe cujos propósitos seriam idênticos aqueles pensados por Pereira Barreto.
Além das oportunidades que surgiam, outro motivo que fez o poeta morar na capital federal foi a doença da esposa, que afinal faleceria, deixando-lhe dois filhos menores. Em virtude da morte da mãe seus filhos foram mandados de volta para Sergipe. No Rio de Janeiro fez o poeta brilhante carreira. Começou como redator de A Imprensa, juntamente com Fausto Cardoso. Fez parte dos jornais O Dia, O País e A Aurora, onde, em alguns deles, se utilizava de pseudônimos. No ano de 1908, estreou no jornal A Noite, cuja nota de apresentação publicou o Gazeta de Notícias, se referindo a Pereira Barreto como nome "muito estimado no mundo literário e jornalístico". Sua fama se expandiu quando lançou, no mesmo ano, em Lisboa, pela Editora Clássica o livro de poesias Selvas e Céus, sendo muito bem recebido pela crítica. O jornal A Imprensa, dirigido por Alcino Guanabara, um dos mais respeitados jornalistas carioca, dava as impressões do poeta e do jornalista da seguinte forma: "impetuoso, vibrante, romântico". No tocante a obra se exprimiu assim: "há neste livro de tudo: amor tristeza, dor, luta, aflição e ... filosofia. E tudo isso o poeta sabe dizer aos seus leitores através de sua personalidade, numa forma correta e, não raro, brilhante com uma simplicidade e uma espontaneidade, que constituem, ao meu ver, os melhores atributos de seu talento"(29.05.1908). Tornou-se, no final desse ano, redator dos debates da Câmara dos Deputados.
No já citado Dicionário, consta que o Jornal do Comércio, de Lisboa refere-se assim ao livro: "Selvas e Céus é um notabilíssimo livro de versos do poeta brasileiro Pereira Barreto... Versos cheios de ritmo, impecáveis de formas e de grande riqueza de rimas. Trechos Impregnados de um suave lirismo, e, por vezes de extraordinária beleza na evocação de imagens quase sempre de uma inconfundível originalidade. É um livro de um verdadeiro poeta e vai, decerto, causar uma profunda e indelével impressão aos meios literários de Portugal e do Brasil". Na obra Diário do Hospício & Cemitério dos Vivos, de Lima Barreto, organizado por Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, em que o escritor narra, nos anos 1920, o seu testemunho sobre sua internação em um hospício, em nota, dizem seus organizadores ter recebido o livro de Pereira Barreto "carta elogiosa de Joaquim Nabuco". Chamou a atenção, no mesmo livro, a narrativa de Lima Barreto, autor de obras como Triste Fim de Policarpo Quaresma e Os Bruzundangas, sua citação ao "lunático" sergipano intitulado por ele de "V. de O." que o encontrou "no corredor do Hospício e ele me falou de forma diferente de todos os outros" e que "esperei encontrar nele um sujeito lido que, por isso ou aquilo tenha caído ali, eu podia conversar por ser da minha raça mental". Porém, o "doutor V. de O. foi um desapontamento" das muitas coisas que contou, tidas como "contraditórias", ainda comentaria o aclamado escritor que: "Ele mesmo tem tido muito dinheiro e tem dado. Promete-me mundos e fundos. Pijamas de seda, passeios a Petrópolis, dinheiro - a gruta de Ali-Babá. É exigente de roupas, que as tem possuído de primeira qualidade tudo bom e fino, vindo do estrangeiro para ele". Mas, Lima Barreto daria um apelido ao amigo Pereira Barreto... (continua)
* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância

* Acrísio Gonçalves de Oliveira

Antes de começarmos a discorrer sobre o personagem do título acima, primeiro faremos rápidas considerações acerca da ascensão poética estanciana em sua história. De fato, ali nasceria, no século XIX, Leopoldo Amaral, os irmãos Severiano Cardoso e Sinfrônio Cardoso, como também os irmãos Constantino Gomes e José Maria Gomes de Souza. Esse era um conjunto de literatos denominados por Silvio Romero (1851-1914), em sua obra Parnaso Sergipano, como os "inteligentes filhos da bela cidade da Estância". Coube a José Maria fazer parte da instauração da escola condoreira no Brasil, um movimento inspirado nos ideais de liberdade do poeta francês Victor Hugo. Tão importante foi a obra de José Maria que historiadores o apontam como o verdadeiro fundador do condoreirismo, antecedendo Tobias Barreto e até mesmo Castro Alves. Porém nessa plêiade de pensadores é preciso adicionar outro talentoso poeta: o jornalista João Pereira Barreto. 
Nascido ainda no século XIX, infelizmente esse literato entraria nas páginas policiais do Rio de Janeiro por um crime - quase impensável para os padrões da época - que chocaria a então capital da República, com repercussão praticamente em todos jornais. A fatalidade passou a ser denominada: "A Tragédia do Icaraí".  
João Antônio Pereira Barreto nasceu na Cidade Jardim a 13 de janeiro de 1876. Era filho do major Antônio Odorico Pereira Barreto e de Maria Petronila Barreto. O pai chegou a ser inspetor do tesouro estadual, ainda no final do século XIX. Consta no Dicionário Biobibliográfico, de Armindo Guaraná que, quando criança a família se transferiu para Aracaju, onde fixaram residência. Fez os estudos primários e secundários no Pathernon Sergipense e em 1887 foi à Bahia, por interesses comerciais. Depois de ficar certo tempo em Salvador, passou para São Paulo, voltando a Sergipe, em 1893, para recuperar-se de uma moléstia. Indo à cidade de Maruim se estabeleceu no comércio local como guarda-livro (equivalente à contabilista). Intelectual, sendo um sócio do Gabinete de Leitura de Maruim tornou-se presidente no período de 1895-1896. 
Publicou ainda no ano de 1895 uma Monografia intitulada Em Prol da Lavoura, que dentre outras coisas reclamava do atraso sergipano "cujo comércio exportador rivaliza em tempo com o das primeiras praças brasileiras" e longe de promover o aperfeiçoamento dos seus produtos "promove, incita, galardoa sua inferioridade". Assim, diante da lavoura que agonizava, no Rio, em 1901, fez uma exposição a deputados e senadores sergipanos sobre como pretendia criar o "Banco Agrícola de Sergipe" que seria inicialmente para ele concedido, ou a "quem mais vantagem oferecer", que, segundo o texto, com o apoio do Estado, passaria aos lavradores sergipanos. Contando com a amizade do deputado federal sergipano Fausto Cardoso o trabalho em questão virou projeto de lei sendo posto em apreciação e aprovado no mesmo ano. Talvez por disputas políticas o tal banco não tenha ido à frente, mas em 1905 o governador Josino Menezes criaria o Banco de Sergipe cujos propósitos seriam idênticos aqueles pensados por Pereira Barreto.
Além das oportunidades que surgiam, outro motivo que fez o poeta morar na capital federal foi a doença da esposa, que afinal faleceria, deixando-lhe dois filhos menores. Em virtude da morte da mãe seus filhos foram mandados de volta para Sergipe. No Rio de Janeiro fez o poeta brilhante carreira. Começou como redator de A Imprensa, juntamente com Fausto Cardoso. Fez parte dos jornais O Dia, O País e A Aurora, onde, em alguns deles, se utilizava de pseudônimos. No ano de 1908, estreou no jornal A Noite, cuja nota de apresentação publicou o Gazeta de Notícias, se referindo a Pereira Barreto como nome "muito estimado no mundo literário e jornalístico". Sua fama se expandiu quando lançou, no mesmo ano, em Lisboa, pela Editora Clássica o livro de poesias Selvas e Céus, sendo muito bem recebido pela crítica. O jornal A Imprensa, dirigido por Alcino Guanabara, um dos mais respeitados jornalistas carioca, dava as impressões do poeta e do jornalista da seguinte forma: "impetuoso, vibrante, romântico". No tocante a obra se exprimiu assim: "há neste livro de tudo: amor tristeza, dor, luta, aflição e ... filosofia. E tudo isso o poeta sabe dizer aos seus leitores através de sua personalidade, numa forma correta e, não raro, brilhante com uma simplicidade e uma espontaneidade, que constituem, ao meu ver, os melhores atributos de seu talento"(29.05.1908). Tornou-se, no final desse ano, redator dos debates da Câmara dos Deputados.
No já citado Dicionário, consta que o Jornal do Comércio, de Lisboa refere-se assim ao livro: "Selvas e Céus é um notabilíssimo livro de versos do poeta brasileiro Pereira Barreto... Versos cheios de ritmo, impecáveis de formas e de grande riqueza de rimas. Trechos Impregnados de um suave lirismo, e, por vezes de extraordinária beleza na evocação de imagens quase sempre de uma inconfundível originalidade. É um livro de um verdadeiro poeta e vai, decerto, causar uma profunda e indelével impressão aos meios literários de Portugal e do Brasil". Na obra Diário do Hospício & Cemitério dos Vivos, de Lima Barreto, organizado por Augusto Massi e Murilo Marcondes de Moura, em que o escritor narra, nos anos 1920, o seu testemunho sobre sua internação em um hospício, em nota, dizem seus organizadores ter recebido o livro de Pereira Barreto "carta elogiosa de Joaquim Nabuco". Chamou a atenção, no mesmo livro, a narrativa de Lima Barreto, autor de obras como Triste Fim de Policarpo Quaresma e Os Bruzundangas, sua citação ao "lunático" sergipano intitulado por ele de "V. de O." que o encontrou "no corredor do Hospício e ele me falou de forma diferente de todos os outros" e que "esperei encontrar nele um sujeito lido que, por isso ou aquilo tenha caído ali, eu podia conversar por ser da minha raça mental". Porém, o "doutor V. de O. foi um desapontamento" das muitas coisas que contou, tidas como "contraditórias", ainda comentaria o aclamado escritor que: "Ele mesmo tem tido muito dinheiro e tem dado. Promete-me mundos e fundos. Pijamas de seda, passeios a Petrópolis, dinheiro - a gruta de Ali-Babá. É exigente de roupas, que as tem possuído de primeira qualidade tudo bom e fino, vindo do estrangeiro para ele". Mas, Lima Barreto daria um apelido ao amigo Pereira Barreto... (continua)

* Acrísio Gonçalves de Oliveira, pesquisador, radialista, Professor do Estado e da Rede Pública de Estância

 


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