Anotações sobre o amanhecer de um povo

Opinião

 

*Rangel Alves da Costa
Bairro São José, cidade de Poço Redondo, Sertão Sergipano do São Francisco, amanhecer deste domingo (ou de outro dia qualquer) - Tudo parecia ainda adormecido até às cinco da manhã. Apenas aparência, vez que os pais de família sempre despertam após a madrugada desapartar da noite e os primeiros raios da aurora surgirem. Mas tudo ainda silencioso e calmo pelas ruas, esquinas, travessas, vielas, becos e descidas. 
As noites velam, e principalmente escondem, realidades absurdamente desconhecidas após as portas e janelas fechadas. Enquanto lá fora os gatos passeias, os andantes noturnos buscam os seus mistérios e os sopros de vento vão levando as folhas secas, outras realidades vão sendo gestadas nos interiores residenciais, dentro de seus aposentos. Quem avista de fora, certamente está tudo bem, mas nem sempre assim. Somente após o madrugar, assim que as primeiras alvas do dia vão chamando ao despertar, é que as feridas não saradas começam a doer mais fortemente.
Os primeiros lumes do dia. Como dito, as portas ainda fechadas nada dizem dos interiores das residências. Sons vão surgindo aqui e acolá. Barulhos de portas de quintal sendo abertas, as primeiras vozes no radinho de pilha, panelas sendo arrastadas de seus armários. Somente depois é que as portas vão sendo abertas, lentamente. Olhares pelas frestas, pelas semiaberturas. Olhares que bem desejariam avistar um mundo mais esperançoso e alegre, que gostariam de encontrar motivações para encontrar caminhos de paz e realizações. Mas tudo parece nevoento aos olhares já infelizmente acostumados com os dias se iniciando em terríveis sombras.
As pessoas procuram manter-se como que se escondidas. Dificilmente mostram o corpo inteiro quando a porta se abre. Não demora muito e surgem os sons de vassouras varrendo as dependências, as calçadas e arredores. Os cachorros magros desandam a se espalhar, os gatos fogem em correria, as galinhas cacarejam famintas. Também. Mas haverá galinhas nos quintais? Não. Galinha é fortuna demais para ciscar por ali. Um menino chora, a mãe pede calma. Está com fome, certamente. Ou despertando com alguma enfermidade, também não muito difícil de acontecer. 
A maioria da comunidade já despertou para o dia. O relógio já marca por volta das seis. As vozes se acentuam e os sons também. Pessoas arrastam cadeiras pelas calçadas, esteiras empoeiradas são batidas no meio da rua, um leiteiro aparece implorando por freguesia, meninos passam com gaiolas de passarinhos, cumprimentos de bom dia pelas esquinas e mais adiante. Amigas se juntam nas calçadas de vassoura à mão, outras fazem dos portais das janelas o início de um estudo profundo sobre o bem e o mal. Não há sino tocando. Somente aos domingos, dia da missa, os sinos dobram chamando à fé. Todas as orações do mundo já foram rezadas. E ao final os mesmos pedidos: forças para o enfrentamento da vida.
Contudo, em localidades mais distanciadas do bairro, principalmente nos limites dos descampados que se alongam em direção aos matos, a maioria das portas continua fechada. Sim, ouvem-se sons, barulhos, mas com as portas continuando fechadas. Infelizmente, há que se dizer que nem sempre há o prazer de abrir janelas e portas e deixar a manhã entrar trazendo esperança e alegria. Na maioria das situações, é a preocupação e o sofrimento que despertam juntos com aqueles moradores, aquelas famílias, principalmente naqueles que precisam oferecer algum alimento aos filhos. 
Que bom que em toda cozinha houvesse panela esperando alimento para ser preparado. Que bom se toda mesa pudesse receber o cuscuz, o café, o leite, os ovos mexidos, a tripa de porco, um mingau, um naco de carne. Mas nem sempre assim acontece. Ou melhor, dificilmente acontece. Daí que a partir das seis, nas vagas das sete em diante, os sons se acentuam, porém sons chorosos, aflitivos, angustiantes. Portas e janelas fechadas e crianças chorando lá dentro. Portas e janelas fechadas e pais chorando por dentro. E o pior: um estado calamitoso que pode ir até a hora do almoço e da janta. 
O sol já se levantou e agora se abre por todo o bairro. Algumas crianças brincam pelas ruas, correm descalças, fantasiam felicidades. Outras permanecem desanimadas até para as maravilhosas traquinagens da idade. E o tempo vai passando e passando. Retornar mais tarde aos mesmos locais é ainda encontrar a maioria daquelas janelas e portas fechadas. E lá dentro o quadro dantesco e estarrecedor da pobreza. Infelizmente, a pobreza ainda é alarmante perante algumas famílias daquela comunidade e de outras que avançam dentro e pelos arredores de Poço Redondo. Contudo - e infelizmente -, uma situação que apenas exemplifica uma realidade ainda existente por todos os rincões nordestinos e brasileiros.
No radinho uma música jovem, animada. Algum sorriso, alguma palavra boa. Mas onde estará a beleza da felicidade? Onde estará a felicidade desse povo que está bem ali e que é nosso irmão?
*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritor
Membro da Academia de Letras de Aracaju
blograngel-sertao.blogspot.com

*Rangel Alves da Costa

Bairro São José, cidade de Poço Redondo, Sertão Sergipano do São Francisco, amanhecer deste domingo (ou de outro dia qualquer) - Tudo parecia ainda adormecido até às cinco da manhã. Apenas aparência, vez que os pais de família sempre despertam após a madrugada desapartar da noite e os primeiros raios da aurora surgirem. Mas tudo ainda silencioso e calmo pelas ruas, esquinas, travessas, vielas, becos e descidas. 
As noites velam, e principalmente escondem, realidades absurdamente desconhecidas após as portas e janelas fechadas. Enquanto lá fora os gatos passeias, os andantes noturnos buscam os seus mistérios e os sopros de vento vão levando as folhas secas, outras realidades vão sendo gestadas nos interiores residenciais, dentro de seus aposentos. Quem avista de fora, certamente está tudo bem, mas nem sempre assim. Somente após o madrugar, assim que as primeiras alvas do dia vão chamando ao despertar, é que as feridas não saradas começam a doer mais fortemente.
Os primeiros lumes do dia. Como dito, as portas ainda fechadas nada dizem dos interiores das residências. Sons vão surgindo aqui e acolá. Barulhos de portas de quintal sendo abertas, as primeiras vozes no radinho de pilha, panelas sendo arrastadas de seus armários. Somente depois é que as portas vão sendo abertas, lentamente. Olhares pelas frestas, pelas semiaberturas. Olhares que bem desejariam avistar um mundo mais esperançoso e alegre, que gostariam de encontrar motivações para encontrar caminhos de paz e realizações. Mas tudo parece nevoento aos olhares já infelizmente acostumados com os dias se iniciando em terríveis sombras.
As pessoas procuram manter-se como que se escondidas. Dificilmente mostram o corpo inteiro quando a porta se abre. Não demora muito e surgem os sons de vassouras varrendo as dependências, as calçadas e arredores. Os cachorros magros desandam a se espalhar, os gatos fogem em correria, as galinhas cacarejam famintas. Também. Mas haverá galinhas nos quintais? Não. Galinha é fortuna demais para ciscar por ali. Um menino chora, a mãe pede calma. Está com fome, certamente. Ou despertando com alguma enfermidade, também não muito difícil de acontecer. 
A maioria da comunidade já despertou para o dia. O relógio já marca por volta das seis. As vozes se acentuam e os sons também. Pessoas arrastam cadeiras pelas calçadas, esteiras empoeiradas são batidas no meio da rua, um leiteiro aparece implorando por freguesia, meninos passam com gaiolas de passarinhos, cumprimentos de bom dia pelas esquinas e mais adiante. Amigas se juntam nas calçadas de vassoura à mão, outras fazem dos portais das janelas o início de um estudo profundo sobre o bem e o mal. Não há sino tocando. Somente aos domingos, dia da missa, os sinos dobram chamando à fé. Todas as orações do mundo já foram rezadas. E ao final os mesmos pedidos: forças para o enfrentamento da vida.
Contudo, em localidades mais distanciadas do bairro, principalmente nos limites dos descampados que se alongam em direção aos matos, a maioria das portas continua fechada. Sim, ouvem-se sons, barulhos, mas com as portas continuando fechadas. Infelizmente, há que se dizer que nem sempre há o prazer de abrir janelas e portas e deixar a manhã entrar trazendo esperança e alegria. Na maioria das situações, é a preocupação e o sofrimento que despertam juntos com aqueles moradores, aquelas famílias, principalmente naqueles que precisam oferecer algum alimento aos filhos. 
Que bom que em toda cozinha houvesse panela esperando alimento para ser preparado. Que bom se toda mesa pudesse receber o cuscuz, o café, o leite, os ovos mexidos, a tripa de porco, um mingau, um naco de carne. Mas nem sempre assim acontece. Ou melhor, dificilmente acontece. Daí que a partir das seis, nas vagas das sete em diante, os sons se acentuam, porém sons chorosos, aflitivos, angustiantes. Portas e janelas fechadas e crianças chorando lá dentro. Portas e janelas fechadas e pais chorando por dentro. E o pior: um estado calamitoso que pode ir até a hora do almoço e da janta. 
O sol já se levantou e agora se abre por todo o bairro. Algumas crianças brincam pelas ruas, correm descalças, fantasiam felicidades. Outras permanecem desanimadas até para as maravilhosas traquinagens da idade. E o tempo vai passando e passando. Retornar mais tarde aos mesmos locais é ainda encontrar a maioria daquelas janelas e portas fechadas. E lá dentro o quadro dantesco e estarrecedor da pobreza. Infelizmente, a pobreza ainda é alarmante perante algumas famílias daquela comunidade e de outras que avançam dentro e pelos arredores de Poço Redondo. Contudo - e infelizmente -, uma situação que apenas exemplifica uma realidade ainda existente por todos os rincões nordestinos e brasileiros.
No radinho uma música jovem, animada. Algum sorriso, alguma palavra boa. Mas onde estará a beleza da felicidade? Onde estará a felicidade desse povo que está bem ali e que é nosso irmão?

*Rangel Alves da Costa, Advogado e escritorMembro da Academia de Letras de Aracajublograngel-sertao.blogspot.com

 


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