O sono dos aflitos

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O presidente do Brasil abriu as portas do hospício
O presidente do Brasil abriu as portas do hospício

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Publicada em 03/01/2019 às 05:51:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Ultimamente, dei de 
olhar as estrelas. 
Todas as noites, o gosto diluído em uma bebida quente, mais os pontos coloridos no escuro imenso, aquietam a ansiedade acampada em meu quintal, no dorso ferido da América do Sul. Cá embaixo, populismos para todos os gostos, de Maduro a Bolsonaro, os coices de um bicho arisco, tiram o sono dos aflitos. Eu, pequeno do tamanho de uma pulga, despisto os pesadelos com uma caneca fumegante e a grandiloquência de Beethoven trovejando nos ouvidos.
Nem todo o ansiolítico do mundo é capaz de apaziguar o confronto promovido pelo 38° presidente eleito do Brasil. Em discurso proferido durante a cerimônia de posse, Jair Messias Bolsonaro investiu contra os postulados do comportamento "politicamente correto". Assim, desde o dia 01 de janeiro, é considerado aceitável, talvez até corajoso, expressar todos os pré conceitos, por todos os meios disponíveis, em alto e bom som.
Os progressistas falharam em tudo. Não se trata mais de defender o valor inegável da obra assinada pelo racista Monteiro Lobato, em mil novecentos e lá vai danou-se; nem de fazer vista grossa para os conflitos de classe naturalizados em 'Roma', uma realização magistral de Alfonso Cuarón. Trata-se, isso sim, de alforriar o impulso homicida enclausurado no peito de uns e outros. O presidente do Brasil abriu as portas do hospício. 
É claro que muita sandice também já foi cometida em obediência a uma noção mesquinha de certo e errado. Virou moda pedir a cabeça de qualquer um, por qualquer motivo. Mas o modus operandi da militância identitária, sensível apenas à própria agenda, a estratégia do escracho, não pode ser confundida com a justiça da afirmação cultural e política dos excluídos. De outro modo, a liberdade de expressão, o maior de todos os valores artísticos e democráticos, serve de instrumento perverso em favor de privilégios absurdos.
Cale a boca já morreu. Ao contrário de muita gente boa, jamais defendi a imposição de qualquer limite à criação artística. Muito menos o do bom tom. Nem o do bom gosto. Nesta seara, a única regra legítima é o alheamento a tudo o que não sirva aos mecanismos internos do trabalho. O presidente Bolsonaro, no entanto, não está preocupado com versos e metáforas. Para ele, ficou provado durante a campanha eleitoral, importa tocar o terror, sem meias palavras.

Ultimamente, dei de  olhar as estrelas.  Todas as noites, o gosto diluído em uma bebida quente, mais os pontos coloridos no escuro imenso, aquietam a ansiedade acampada em meu quintal, no dorso ferido da América do Sul. Cá embaixo, populismos para todos os gostos, de Maduro a Bolsonaro, os coices de um bicho arisco, tiram o sono dos aflitos. Eu, pequeno do tamanho de uma pulga, despisto os pesadelos com uma caneca fumegante e a grandiloquência de Beethoven trovejando nos ouvidos.
Nem todo o ansiolítico do mundo é capaz de apaziguar o confronto promovido pelo 38° presidente eleito do Brasil. Em discurso proferido durante a cerimônia de posse, Jair Messias Bolsonaro investiu contra os postulados do comportamento "politicamente correto". Assim, desde o dia 01 de janeiro, é considerado aceitável, talvez até corajoso, expressar todos os pré conceitos, por todos os meios disponíveis, em alto e bom som.
Os progressistas falharam em tudo. Não se trata mais de defender o valor inegável da obra assinada pelo racista Monteiro Lobato, em mil novecentos e lá vai danou-se; nem de fazer vista grossa para os conflitos de classe naturalizados em 'Roma', uma realização magistral de Alfonso Cuarón. Trata-se, isso sim, de alforriar o impulso homicida enclausurado no peito de uns e outros. O presidente do Brasil abriu as portas do hospício. 
É claro que muita sandice também já foi cometida em obediência a uma noção mesquinha de certo e errado. Virou moda pedir a cabeça de qualquer um, por qualquer motivo. Mas o modus operandi da militância identitária, sensível apenas à própria agenda, a estratégia do escracho, não pode ser confundida com a justiça da afirmação cultural e política dos excluídos. De outro modo, a liberdade de expressão, o maior de todos os valores artísticos e democráticos, serve de instrumento perverso em favor de privilégios absurdos.
Cale a boca já morreu. Ao contrário de muita gente boa, jamais defendi a imposição de qualquer limite à criação artística. Muito menos o do bom tom. Nem o do bom gosto. Nesta seara, a única regra legítima é o alheamento a tudo o que não sirva aos mecanismos internos do trabalho. O presidente Bolsonaro, no entanto, não está preocupado com versos e metáforas. Para ele, ficou provado durante a campanha eleitoral, importa tocar o terror, sem meias palavras.