\"Boas Festas\"

Opinião

 

* Antonio Passos
Ano após ano sempre encontro alguém dizendo que chora no natal. Dizem sentir, na noite do dia 24 de dezembro, uma tristeza difusa e de origem imprecisa que, vez por outra, desemboca em algumas ou muitas lágrimas. Não tenho lembrança de já ter ouvido semelhante confissão referente, por exemplo, aos festejos juninos ou ao carnaval.
A minha idade me proporciona recordações de muitos natais acumulados e o que relatei no parágrafo anterior tem sido uma evidência recorrente. Porém, observo ainda, nem todas as pessoas são tragadas pela desolação natalina. Desconfio haver um perfil predisposto às lágrimas que correm nos festejos de aniversário do menino Jesus.
Muitos apenas se divertem e enfiam o pé na jaca, sem qualquer traço de desconforto: capricham no banho e no perfume, estreiam figurino, colam no rosto um mesmo sorriso pronto para afetos e desafetos, são generosos na distribuição de tapinhas nas costas, comem como Dona Redonda e se enchem de álcool até a tampa.
Essas e esses que compõem o bloco da superficial alegria geralmente aderem ao pacote completo, "all inclusive". Por vezes vão à missa do galo e nunca deixam de cumprir o ritual comandado pelo bom velhinho. Acendem uma vela para Cristo e outra para Noel. Contudo, não esqueçamos, há os que sentem aquele aperto no peito.
De tanto ouvir relatos sobre a ânsia natalina do choro, passei a conversar em busca de possíveis motivações para esse tão datado estado de espírito. Dos diálogos colhi indícios de que as pessoas mais afetadas por essa tristeza que desabrocha no meio da festa são aquelas que têm mais aflorada sensibilidade ética e social.
A sensibilidade ética leva a uma assimilação clara e dolorida de toda a hipocrisia que dá o tom nas ceias natalinas. A empatia com o coletivo realça a percepção das desigualdades presentes na comemoração. Atos de caridade entram no jogo para amenizar o incômodo, porém, não contentam inteiramente aos mais sensíveis.
A hipocrisia mostra a cara no encontro de parentes que desperdiçam 364 dias do ano (ou 365 quando o ano é bissexto) sendo indiferentes ou até agressivos entre si e, em apenas uma noite, representam uma irmandade ou amizade negligenciada no cotidiano. Para os eticamente mais sensíveis resta um nó na garganta.
A desigualdade mostra-se no contraste entre a fartura e a privação, na corrida insana para as compras, como se a riqueza dos presentes dados e recebidos fosse demonstração de uma distinção divina. Ao perceber que apenas na propaganda comercial o natal é para todos, os socialmente mais sensíveis murcham.
Não por acaso, entre essas pessoas que entristecem no decorrer da noite de natal, é comum encontrar apreciadores dos versos contidos na mais socialmente realista entre as muitas canções natalinas: "Boas Festas" (1933), composta pelo baiano, nascido em Santo Amaro, Assis Valente (1911-1958):
"Anoiteceu, o sino gemeu / E a gente ficou feliz a rezar / Papai Noel, vê se você tem / A felicidade pra você me dar / Eu pensei que todo mundo / Fosse filho de Papai Noel / E assim felicidade / Eu pensei que fosse uma / Brincadeira de papel / Já faz tempo que eu pedi / Mas o meu Papai Noel não vem / Com certeza já morreu / Ou então felicidade / É brinquedo que não tem".
* Antonio Passos é jornalista

* Antonio Passos

Ano após ano sempre encontro alguém dizendo que chora no natal. Dizem sentir, na noite do dia 24 de dezembro, uma tristeza difusa e de origem imprecisa que, vez por outra, desemboca em algumas ou muitas lágrimas. Não tenho lembrança de já ter ouvido semelhante confissão referente, por exemplo, aos festejos juninos ou ao carnaval.
A minha idade me proporciona recordações de muitos natais acumulados e o que relatei no parágrafo anterior tem sido uma evidência recorrente. Porém, observo ainda, nem todas as pessoas são tragadas pela desolação natalina. Desconfio haver um perfil predisposto às lágrimas que correm nos festejos de aniversário do menino Jesus.
Muitos apenas se divertem e enfiam o pé na jaca, sem qualquer traço de desconforto: capricham no banho e no perfume, estreiam figurino, colam no rosto um mesmo sorriso pronto para afetos e desafetos, são generosos na distribuição de tapinhas nas costas, comem como Dona Redonda e se enchem de álcool até a tampa.
Essas e esses que compõem o bloco da superficial alegria geralmente aderem ao pacote completo, "all inclusive". Por vezes vão à missa do galo e nunca deixam de cumprir o ritual comandado pelo bom velhinho. Acendem uma vela para Cristo e outra para Noel. Contudo, não esqueçamos, há os que sentem aquele aperto no peito.De tanto ouvir relatos sobre a ânsia natalina do choro, passei a conversar em busca de possíveis motivações para esse tão datado estado de espírito. Dos diálogos colhi indícios de que as pessoas mais afetadas por essa tristeza que desabrocha no meio da festa são aquelas que têm mais aflorada sensibilidade ética e social.
A sensibilidade ética leva a uma assimilação clara e dolorida de toda a hipocrisia que dá o tom nas ceias natalinas. A empatia com o coletivo realça a percepção das desigualdades presentes na comemoração. Atos de caridade entram no jogo para amenizar o incômodo, porém, não contentam inteiramente aos mais sensíveis.
A hipocrisia mostra a cara no encontro de parentes que desperdiçam 364 dias do ano (ou 365 quando o ano é bissexto) sendo indiferentes ou até agressivos entre si e, em apenas uma noite, representam uma irmandade ou amizade negligenciada no cotidiano. Para os eticamente mais sensíveis resta um nó na garganta.
A desigualdade mostra-se no contraste entre a fartura e a privação, na corrida insana para as compras, como se a riqueza dos presentes dados e recebidos fosse demonstração de uma distinção divina. Ao perceber que apenas na propaganda comercial o natal é para todos, os socialmente mais sensíveis murcham.
Não por acaso, entre essas pessoas que entristecem no decorrer da noite de natal, é comum encontrar apreciadores dos versos contidos na mais socialmente realista entre as muitas canções natalinas: "Boas Festas" (1933), composta pelo baiano, nascido em Santo Amaro, Assis Valente (1911-1958):
"Anoiteceu, o sino gemeu / E a gente ficou feliz a rezar / Papai Noel, vê se você tem / A felicidade pra você me dar / Eu pensei que todo mundo / Fosse filho de Papai Noel / E assim felicidade / Eu pensei que fosse uma / Brincadeira de papel / Já faz tempo que eu pedi / Mas o meu Papai Noel não vem / Com certeza já morreu / Ou então felicidade / É brinquedo que não tem".

* Antonio Passos é jornalista

 


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