O segredo no miolo

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Philip Roth, autor de \'O complexo de Portnoy\': o maior escritor vivo da atualidade
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Publicada em 03/04/2018 às 06:44:00

 

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br
Emprestar um livro é 
como aproximar dois 
amigos. Você conhece um e outro, e os momentos felizes na companhia de ambos fazem crer na ilusão de uma comunidade.
Mais das vezes, não ocorre bem assim, entretanto. A comunhão pretendida, à custa de um desprendimento imenso, simplesmente não vinga. O volume subtraído à vaidade das estantes e prateleiras jaz mudo, atropelado pelos ponteiros dos relógios, a falta de interesse, longe dos olhos e do pensamento a que foi confiado, um mundo inteiro em palavras represadas, fechado em copas, sem dizer nada.
Quando a amizade acontece, no entanto, dura até o fim da vida. Gilvan Manoel me apresentou Philip Roth; Jozailto Lima à poesia bruta de João Brasileiro; o livreiro Fúria assoprou o nome dos malditos em meus ouvidos... E toda vez quando eu converso com um, lembro do outro, e percorro de novo um caminho repleto de lombadas, volto aos bancos duros da escola, onde eu lambia as safadezas nos contos de Sade, aluno cativo do fundão, alheio ao quadro negro e a aula de matemática.
Leitor de biblioteca modesta, avaro dos títulos garimpados em sebos e livrarias de oferta muito limitada, tenho sempre em mente cada um dos filhos espalhados pelo mundo. Dói imaginá-los sem pouso certo, largados de qualquer jeito, negligenciados. Alguns estão perdidos para sempre, e as suas páginas fazem a falta de um bicho de estimação que força a coleira, perdido nas ruas, sem esperança de encontrar o rumo de volta pra casa.
Confiar um livro a alguém é chamá-lo amigo. E somente a leitura atenta, de peito aberto e coração, está a altura de gesto tão generoso e desinteressado. O segredo no miolo acena maravilhas. A maior de todas, no entanto, salta à vista - a própria declaração, mundana e táctil como um maço de cigarros.

Emprestar um livro é  como aproximar dois  amigos. Você conhece um e outro, e os momentos felizes na companhia de ambos fazem crer na ilusão de uma comunidade.
Mais das vezes, não ocorre bem assim, entretanto. A comunhão pretendida, à custa de um desprendimento imenso, simplesmente não vinga. O volume subtraído à vaidade das estantes e prateleiras jaz mudo, atropelado pelos ponteiros dos relógios, a falta de interesse, longe dos olhos e do pensamento a que foi confiado, um mundo inteiro em palavras represadas, fechado em copas, sem dizer nada.
Quando a amizade acontece, no entanto, dura até o fim da vida. Gilvan Manoel me apresentou Philip Roth; Jozailto Lima à poesia bruta de João Brasileiro; o livreiro Fúria assoprou o nome dos malditos em meus ouvidos... E toda vez quando eu converso com um, lembro do outro, e percorro de novo um caminho repleto de lombadas, volto aos bancos duros da escola, onde eu lambia as safadezas nos contos de Sade, aluno cativo do fundão, alheio ao quadro negro e a aula de matemática.
Leitor de biblioteca modesta, avaro dos títulos garimpados em sebos e livrarias de oferta muito limitada, tenho sempre em mente cada um dos filhos espalhados pelo mundo. Dói imaginá-los sem pouso certo, largados de qualquer jeito, negligenciados. Alguns estão perdidos para sempre, e as suas páginas fazem a falta de um bicho de estimação que força a coleira, perdido nas ruas, sem esperança de encontrar o rumo de volta pra casa.
Confiar um livro a alguém é chamá-lo amigo. E somente a leitura atenta, de peito aberto e coração, está a altura de gesto tão generoso e desinteressado. O segredo no miolo acena maravilhas. A maior de todas, no entanto, salta à vista - a própria declaração, mundana e táctil como um maço de cigarros.