Policiais investigam fazendeiros por mutilação de bois para vaquejada

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Fotos tiradas por vaqueiros da região comprovaram as mutilações dos animais: maus tratos. Foto: Reprodução/Herbert Pereira
Fotos tiradas por vaqueiros da região comprovaram as mutilações dos animais: maus tratos. Foto: Reprodução/Herbert Pereira

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Publicada em 11/06/2017 às 00:12:00

Gabriel Damásio

 

Uma prática ilegal realizada por alguns proprietários de animais bovinos é investigada pelo Ministério Público Estadual (MPE) e pela Polícia Civil: as caudas de bois, vacas e bezerros estariam sendo cortadas para dificultar a ação dos vaqueiros em competições de vaquejadas ou corridas de ‘pega do boi’. A denúncia motivou uma operação deflagrada nesta sexta-feira em Gararu (Médio Sertão), onde a promotora local Rosane Gonçalves, acompanhada por integrantes da Polícia Civil, do Pelotão de Polícia Ambiental (PPAmb) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), interditaram uma fazenda no povoado Lagoa do Boi, zona rural do município.

Na visita ao local, as equipes constataram que os animais estavam com os rabos parcialmente ou totalmente decepados, mais curtos que o normal. Os proprietários e alguns empregados que participaram das mutilações foram autuados em flagrante pelo crime de maus tratos a animais. Entre eles, está o filho de um vereador de Gararu, cujo nome não foi divulgado. A polícia também apreendeu 11 telefones celulares com áudios trocados entre os envolvidos, nos quais alguns até admitiram a prática. “As minhas, eu ‘torei’ num palmo e pouco, agora vou ‘torar no tronco’ [perto do corpo] pra ver onde o vaqueiro vai pegar”, diz uma das gravações, na qual um homem se refere ao tamanho do corte nas caudas dos bovinos.

A investigação foi provocada pelo bacharel em direito e suplente de vereador Herbert Pereira (Rede), que fez uma representação à Promotoria da Comarca de Gararu, após receber uma denúncia. “Um vaqueiro da região mandou uma mensagem pra mim com a informação de que os animais estavam sendo mutilados para correr nas vaquejadas e ‘pegas de boi’. Depois de um tempo, ele enviou muitas fotos e vídeos mostrando os animais com a cauda cortada, além das mensagens de whatsapp que eles trocavam, dizendo que ‘vai cortar no toco’, é pra cortar mesmo’. Foi a confirmação de um crime grave de maus tratos”, disse Herbert.

Ainda de acordo com ele, o próprio denunciante demonstrou indignação e deixou claro que a maioria dos vaqueiros e das pessoas que apreciam a ‘pega do boi’ não concorda com a mutilação das caudas. Destaca-se a forma encontrada pelos proprietários para fazer isso: um elástico muito apertado é colocado no rabo para prender o sangue e entrar na carne aos poucos, provocando a necrose do ferimento e a consequente queda da cauda. Em outros casos, o corte é realizado a golpes de facão ou machado.Além dos maus tratos, os vaqueiros reclamam que a prática é desleal e visa dar vantagem a alguns competidores.

“Há pessoas que criam animais para corridas de pega ou de vaquejada e, em geral, eles são bois mais ariscos, bravos. Essas pessoas cortam a cauda para dificultar que o vaqueiro pegue o animal e tenha que se esforçar mais, o que incomodava muito as pessoas e os próprios vaqueiros, sem contar toda a dor e o sofrimento causado aos animais”, afirma Pereira. Em seu blog, ele relata ainda que os vaqueiros temem que a prática ilegal se espalhe por outras fazendas da região. “É isso que nós queremos mesmo, que tomem providências. Não ligo se pode sujar a imagem da corrida do boi, o que não pode é continuarem a fazer isso com os animais. Pois está virando moda...”, escreveu o denunciante.

Um inquérito policial foi aberto pela Delegacia de Polícia de Gararu contra os donos dos animais, que também responderão ao procedimento investigativo já aberto pelo Ministério Público. Todos permanecerão em liberdade, mas podem ser punidos com multa e até um ano de prisão, com base na Lei de Crimes Ambientais. Segundo as normas de Bem-Estar Animal da Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha (ABQM), principal reguladora dos rodeios e vaquejadas no país, os bovinos usados nas corridas devem usar rabos artificiais feitos de nylon que revestem a cauda, evitando lesões e outros ferimentos.