Tirem as crianças da sala

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O barato é coletivo
O barato é coletivo

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Publicada em 19/01/2015 às 22:45:00

Rian Santos
riansantos@jornaldodiase.com.br

Adolfo Sá é jornalista de palavras rápidas, com a rara virtude de ir sempre direto ao ponto. Quem se dedicar às quase 300 páginas de Viva La Brasa, com lançamento previsto para o dia 23 de janeiro, na Caverna do Jimi Lennon, vai tragar a essência de nossos dias sob a perspectiva de um jovem no exercício de sua vocação em uma seleção de textos marinados pela maresia da praia.
Embora fincado no umbigo do Homem Brasa, primeiro mandamento de um gonzo de alta estirpe, o rascunho diz muito a respeito do resto mundo. Somente o crème de la creme pinçado de uma década inteira de postagens no blog homônimo. Pegada de zine. HQ, surf, ativismo, bagulho e barulho, não necessariamente nessa ordem.
Em conversa com o Jornal do Dia, Adolfo divaga sobre a aptidão para as palavras, descoberta durante a confecção do zine 'Cabrunco', na primeira metade dos 90; aponta a falência dos grandes mercados culturais; e destila veneno a torto e direito: "Não tenho um pingo de fé na humanidade".

Gran Fiesta Viva La Brasa:
Sexta-feira, 23 de janeiro, na Caverna do Jimi Lennon (Rua Lagarto, 1140).

Jornal do Dia - Não sei quantos anos de Cabrunco, mais uma década inteira de postagens no Viva La Brasa, tudo isso sem ganhar tostão. Jornalismo é paixão ou ofício?

Adofo Sá - Jornalismo é vocação. Uma vocação de merda, por sinal, que não dá grana e ainda pode levar a uma decapitação pelas mãos de um Estado Islâmico da vida. Veja o caso recente do Charlie Hebdo e contextualize a profissão em Sergipe e o Nordeste, onde ainda reina o coronelismo e os meios de comunicação pertencem a duas ou três famílias. Mesmo que eu tivesse juntado todo dinheiro que ganhei publicando matérias ao longo de 20 anos, não daria nem pra pagar a impressão do livro.

JD - Você pegou a contramão da história, concorda comigo? Justamente quando meio mundo se apressa em decretar o fim dos suportes analógicos e a morte do impresso, em plena era do streaming, o cara me aparece com um livro "de carne e osso". Ainda dá pra botar fé nessa entidade misteriosa, o leitor?

Adofo Sá - Não tenho um pingo de fé na humanidade, e boto menos fé ainda no leitor. Mas discordo, em termos.  Hoje em dia se publicam mais livros do que nunca, a tecnologia barateou os custos de produção e até fanzines são feitos em gráfica. A internet quebrou as pernas dos grandes mercados culturais estabelecidos em alicerces corporativos, mas acabou ajudando muito a produção independente ao facilitar o acesso à informação e à divulgação do trabalho.
Comecei com o blog como uma alternativa barata à autopublicação, processo que eu abracei nos anos 90 com os zines. Ao longo dos anos 2000, blogs perderam espaço pra redes sociais e a informação imediata se sobrepôs ao texto, à pesquisa e até mesmo à credibilidade - a notícia que você lê no Facebook muitas vezes não é verdadeira. Mas o incômodo só existe pros jornais, revistas e TVs, da mesma forma que as gravadoras se foderam com o livre compartilhamento de MP3. No underground a coisa vai muito bem, obrigado.
O leitor sempre existirá. Mesmo que role uma guerra atômica e não haja mais fornecimento de água, eletricidade e internet, os livros que não forem queimados nas explosões atômicas continuarão aí, prontos para ser lidos. Não precisa ligar em nenhuma tomada, nem ter senha de conexão wi-fi.
Agora, é verdade que as pessoas lêem cada vez menos, estão aí os zeros na redação do Enem pra comprovar. Ler é poder, quem não lê tem mais é que se foder.

JD - O Viva La Brasa se detém sobre um universo muito específico, habitado por tudo quanto é tipo de freak. Os papocos do underground interessam a quem, além de seus próprios habitantes?

Adofo Sá - O livro não foi feito pra agradar. Não tenho a ilusão de falar a todas as pessoas, até porque eu conheço muita gente com quem não quero nem falar. O público-alvo são pessoas que entendem a viagem e curtem o universo retratado ali: cena independente, histórias em quadrinhos e estados alterados da mente. Não é pra toda a família. Se quiserem usar como livro de mesa, tirem as crianças da sala.

JD - O lançamento do Viva La Brasa tem tudo para se transformar numa grande congregação de malucos e afins. O livro leva a sua assinatura, naturalmente, mas as quase 300 páginas do volume celebram os feitos de uma geração inteira. O barato é coletivo?

Adofo Sá - O barato é louco, o sistema é bruto e o projeto é coletivo como um ônibus lotado. Banquei todo o livro com grana do próprio bolso, quanta gente você conhece que faz isso? Vivemos num estado onde grande parte da arte é subsidiada com verba pública, nisso eu tô indo na contramão. Sempre gostei de trabalhar com colaboradores, desde os zines nos anos 90. Ganho a vida com audiovisual e sei da importância do trabalho em conjunto. Por isso, fiz questão de assinar o livro "Adolfo Sá & amigos".